Nômades Digitais: nova forma de trabalhar impacta mercado imobiliário

29 de setembro de 2022

Vitor Chieza tem 29 anos e já conheceu 58 países. Ele é um nômade digital. A paixão por viagens o fez adotar esse modo de vida. “Sempre amei viajar e quando descobri que podia trabalhar viajando, quis esse jeito de viver para mim” conta. No perfil no Instagram, @vitorchieza, ele mostra suas viagens pelo mundo. Vitor, que trabalha com vendas on-line, conta que a decisão não foi tomada da noite para o dia. “Fui atrás do meu sonho em 2018, aos 25 anos. Na época eu morava e trabalhava em Barcelona e estava com muitas saudades da minha família. A única forma que eu tinha pra seguir ganhando dinheiro e poder vê-los era me tornando nômade digital”, lembra.

Outro que decidiu investir nessa nova forma de trabalho foi o empreendedor Wendell Sousa, de 20 anos. Ele já trabalhou em 13 países. “Sempre gostei da ideia de viajar o mundo, conhecer novos lugares, pessoas e culturas. Pesquisando sobre viagens no YouTube, achei canais de pessoas que viajavam o mundo e trabalhavam de forma simultânea. A partir daí me encantei e nasceu em mim a vontade de viver esse lifestyle”, diz o nômade.

Wendell explica que a pandemia reforçou ainda mais o desejo de mudar de vida. “A pandemia ajudou sim, pois antes dela eu estava morando nos EUA, tive que voltar para o Brasil e com as fronteiras fechadas eu não consegui voltar para os EUA para fazer faculdade, por isso foquei no meu plano de empreendedorismo digital que me dá a flexibilidade de viajar o mundo e trabalhar ao mesmo tempo”, revela.

Para a troca de experiências e informações eles usam as redes sociais, como por exemplo, o Facebook e também o site Nomad List.

NOMADISMO E AS NOVAS MANEIRAS DE ALUGAR IMÓVEL

“Nômade é um profissional que trabalha online e, portanto, não precisa estar presente em um escritório, cidade ou país em particular. Ele pode trabalhar de qualquer lugar no mundo, desde que tenha uma boa conexão de internet”, explica Ana Debiazi, CEO da Leonora Venture. Ana diz que essas mudanças de hábitos, que já estava em ascensão com a força crescente da economia, foi impulsionada pela pandemia e que o mercado imobiliário precisa se ajustar. “Brian Chesky, CEO do Airbnb, em uma entrevista ao site Business Insider, disse acreditar no aumento de nômades digitais e que uma solução para atender a esses profissionais, que passarão a trabalhar enquanto viajam, seria intensificar a oferta de longo prazo”, comenta a CEO.

E os dados confirmam esse crescimento. O Pnad Covid, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que em novembro de 2020 havia 7,3 milhões de brasileiros trabalhando remotamente. O site Nomad List, principal portal sobre nomadismo digital, estima que até 2035 exista 1 bilhão de nômades digitais no mundo.

O QUE OS NÔMADES PROCURAM EM UM IMÓVEL?

Além de escolher o país de acordo com seus desejos, os nômades digitais também procuram por comodidade e lógico, uma boa internet. “Escolho o lugar pelas minhas preferências, no meu caso, gosto de surfar, conforto e comida boa. Além disso, pesquisar a estrutura é importante. “Verificar se tem uma boa internet, se é um local silencioso. Um coworking é uma boa opção”, enumera Vitor Chieza. Wendell Sousa compartilha do mesmo pensamento. “Escolho de acordo com a minha vontade e sonhos, mas sempre levo em consideração a estrutura que terei no local, coisas como internet, por exemplo, que é essencial para o meu trabalho. Depois analiso a localização do imóvel. Priorizo bastante estar bem localizado na cidade, perto de restaurantes, de alguns pontos turísticos, supermercado, metrô, etc. e depois analiso a estrutura do imóvel em si. Normalmente prefiro imóveis mais novos e futurísticos”, descreve. E completa: “É importante que o local tenha uma boa mesa de trabalho, para você montar ali o seu set up e continuar sendo produtivo. Uma cama confortável pois precisamos descansar bem para conciliar o turismo com o trabalho e também sempre me preocupo com questões como limpeza e manutenção do local, pois quando estou na cidade, foco meu tempo somente no trabalho e no turismo e não quero perder tempo resolvendo problemas de estrutura ou limpeza”.

Ana Debiazi, CEO da Leonora Ventures, diz que a digitalização do mercado imobiliário vai além de trazer dispositivos tecnológicos para dentro dos imóveis e está presente até mesmo nos elementos físicos. “O nômade digital busca estar conectado a todo momento, ao mesmo tempo que quer o conforto da estadia de médio e longo prazo. A possibilidade de personalização da experiência e a flexibilidade de poder receber amigos, cozinhar, fazer reuniões e poder viver de forma fluida é um grande diferencial para esse público”, acredita. E acrescenta: “É uma forma de turismo estendido, são viajantes que passam a usufruir de serviços que um turista tradicional não usufruiria, como academia, salão de beleza e serviços diversos que são consumidos por pessoas que precisam de mais tempo em determinado local. Estima-se que temos cerca de 35 milhões de nômades digitais no mundo e 38% ganham mais de R$ 34 mil por mês, eles chegam a gastar bilhões de dólares por ano”, diz Ana.

A CEO também aponta outras mudanças que vêm ocorrendo na forma de alugar imóveis. “O aluguel por assinatura, podendo ter distintos prazos de contratação, com mobílias já existentes no imóvel, e sem ter que desembolsar outra quantia para as despesas de luz, água, internet ou condomínio, vem ganhando forma entre este tipo de trabalhador”, revela.

Bruno Queiroz, gerente de operações e negócios e que atualmente administra o Hub Lapa, um empreendimento moderno, que aluga imóvel para curtíssima, média ou longa temporada, localizado no coração do Rio de Janeiro, acredita que essas mudanças não podem ser ignoradas. “A busca por empreendimentos que ofereçam serviços compartilhados e que tenham áreas comuns mais conectadas com as necessidades dos nômades digitais passam a ser alvo de locação desse público. Os condomínios que não desfrutarem dessas comodidades passarão a ser vistos como imóveis obsoletos e os proprietários investidores que usam imóvel para fins de locação tendem a desacelerar ou migrar para empreendimentos que estão se modernizando”, acredita Bruno.

STARTUPS E O NOMADISMO

Algumas startups já estão de olho nesse mercado crescente e criando soluções para muitas dores que podem facilitar a vida dos nômades digitais. Vitor Chieza cita como exemplo a Selina. “Essa rede de hotéis tem boas acomodações para nômades digitais, e me ajuda bastante”. Wendell Sousa cita algumas que facilitam a sua vida. “Eu gosto da Airbnb para alugar imóveis no exterior, e a Skyscanner e Momondo para buscadores de passagem. A TransferWise para utilizar um cartão em várias moedas e em vários países e pagar menos taxas, Google Tradutor para ajudar a traduzir algo em um cardápio ou até mesmo em uma embalagem de remédio”, indica .

Para Ana há uma oportunidade muito grande de empreendedorismo nesse nicho. “De imóveis a serviços de saúde, incluindo pet, há uma oferta ilimitada para quem quer ter uma vida mais livre. Precisamos pensar em todos os detalhes da vida do nômade digital. Como atendê-lo desde comodidades em moradia, estilo de vida, forma de trabalho, saúde, educação, entretenimento. E na moradia, devemos lembrar que estas pessoas possuem um estilo de vida mais saudável, ligado à natureza, pensando em sustentabilidade. Energia renovável, uso consciente da água, espaços ao ar livre”, diz

BRASIL REGULAMENTA VISTO PARA NÔMADES DIGITAIS

Com o intuito de fomentar as atividades dos “nômades digitais” no Brasil, o Conselho Nacional de Imigração, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, regulamentou a concessão de visto temporário e autorização de residência a imigrante que, sem vínculo empregatício no País e fazendo uso de tecnologias da informação, execute trabalhos para empregadores estrangeiros através da Resolução Normativa nº 45, de 09.09.2021, do Conselho Nacional de Imigração, ligado ao Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Além disso, o Ministério da Justiça lançou um Guia Prático de Autorização de Residência para Nômades Digitais. O documento amplia o acesso à informação para estrangeiros que desejam morar no Brasil e trabalhar remotamente para empresas do exterior.

“A criação do visto diferenciado para nômade digital foi um importante passo que o país deu e que contribui com a construção desse ecossistema no Rio, um dos principais destinos na América Latina. O documento ajuda a fazer com que nômades digitais que possuem contrato fixo com empresas possam escolher a cidade como uma moradia durante um período maior, dando segurança jurídica para essa permanência. Dessa forma, iremos observar pessoas que passam um ou dois meses no Rio, da mesma forma que veremos alguém que escolhe a cidade por um período mais longo de um ou dois anos”, explica Julio Azevedo, vice -presidente da Invest.rio, empresa de investimentos da prefeitura.

Júlio conta que a prefeitura do Rio de Janeiro, atenta ao crescimento dessa nova modalidade de trabalho, está trabalhando para receber os nômades da melhor maneira possível. “Lançamos um portal, um projeto RioTur e Invest Rio, que centraliza diversas informações e parcerias para ajudar na estadia desse nômade, como hospedagens e locais para trabalho (coworkings). Os parceiros que se encontram neste portal possuem preços diferenciados para esse público que tem como característica uma permanência maior que 30 dias”, revela Júlio. O portal é o www.nomadesdigitais.rio. Até o momento já são 56 hotéis, 14 hostels e 18 espaços de coworking cadastrados.

O QUE A LEI DIZ SOBRE OS ALUGUÉIS PARA NÔMADES

A tendência é que essa forma de trabalho possibilite transações imobiliárias mais rápidas e sem muitas burocracias. Atualmente, os nômades ainda são regidos pelas leis já vigentes. Fabricio Posocco, professor universitário e advogado do escritório Posocco & Advogados Associados, explica que os aluguéis dos nômades digitais podem ser regidos por duas leis diferentes, dependendo do local a ser alugado. “Para que essas pessoas possam trabalhar, por exemplo, em uma casa de campo no interior, pode-se aplicar a Lei do Inquilinato, haja vista que atende locações residenciais e para temporada. Mas se o aluguel for por pouco tempo, a legislação muda. “Na locação de curta temporada em flat e hotel ou ainda de espaço em cowork, não se aplica a Lei do Inquilinato, mas sim o Código Civil ou a Lei Geral do Turismo. Essa Lei foi regulamentada pelo Decreto nº 7.381/2010, e prevê em seu Art. 23, que se consideram meios de hospedagem os empreendimentos ou estabelecimentos, destinados a prestar serviços de alojamento temporário, ofertados em unidades de frequência individual e de uso exclusivo do hóspede, bem como outros serviços necessários aos usuários. Cada caso será um caso a ser analisado”, destaca o advogado.

Se em um condomínio, algum morador quiser alocar o apartamento para essa nova modalidade, a Convenção deve ser consultada. “Tudo depende do prazo da locação e daquilo que diz a Convenção Condominial ou se já existe algum posicionamento contrário proferido pela assembleia do condomínio. Vale lembrar que prédios residenciais, muitas vezes, não permitem locações de curta temporada ou realizadas por plataformas digitais, por questões de segurança” explica o advogado.

Ana Debiazi, CEO da Leonora Ventures, acredita que com o crescimento do nomadismo tudo ficará mais fácil. “As burocracias que envolvem o aluguel, como fiador, registro em cartório, tempo mínimo de permanência, com multas para rescisão fora do prazo, devem ser tiradas do escopo. Trata-se de um serviço tipo plug’n’play, ou como um streaming, pagou, usou”, explica.

INOVAÇÕES NO RAMO IMOBILIÁRIO

A tecnologia veio para revolucionar o ramo imobiliário e não há como retroceder. A palavra do momento é adaptação. “Tecnologia será fator crítico de sucesso para consolidação do trabalho remoto. Nômades e investidores do mercado imobiliário terão uma transição, estamos na era da conectividade e do compartilhamento, qualquer um dos lados vai precisar se atentar a qualidade da conectividade, espaços que favoreçam a produção, compartilhamento de recursos e pagamentos por uso. Estamos falando desde lavanderia até mobilidade urbana, para isso que nós temos nos preparado enquanto administradores de empreendimentos, em dar apoio a transição, proporcionar aos nossos clientes um pacote de soluções de bem-estar, sustentabilidade e economia, esse é o futuro que se avizinha”, acredita Bruno Queiroz, gerente de operação e negócio.

Para Ana Debiazi, CEO da Leonora Venture, também será pela inovação e tecnologia que o mercado imobiliário irá crescer ainda mais, se tornando cada vez mais rentável e sustentável. “O mercado ainda está absorvendo as mudanças, que aconteceram de forma muito rápida. O mercado imobiliário ainda é muito tradicional, offline, e isso está em mudança. O lado bom é que os empresários e empreendedores estão abertos às mudanças e às inovações”, acredita. Ela aposta em algumas novidades para o ramo condominial. “Aluguel mais fácil, sem burocracias, por tempo determinados pelo inquilino, as chamadas casas por assinatura. Co-moradia ou casa compartilhada. Uso sustentável dos recursos naturais, como água e energia. Moradias com ambientes para trabalho, pets e comodidades como serviços tipo lavanderias, lanches rápidos, mercadinhos. Materiais para construção mais sustentáveis e reciclados, experiência do cliente em compra de imóveis e mobiliário, e carregamento de carros elétricos/híbridos”, enumera.

Reportagem: Simone Leite/condo.news